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Mike Shinoda: “Se você está esperando por guitarras pesadas, então este álbum não é pra você”

Recentemente, Mike Shinoda deu uma entrevista para o site All Things Loud, onde ele conta mais sobre a colaboração com outros artistas para o álbum “One More Light”, suas letras, produção do álbum, reações dos fãs e mais! Confira:

Até algumas semanas atrás, fazia tempo que o mundo não ouvia nada concreto sobre a nova empreitada do Linkin Park. Encerrando a campanha de 2014 até o final de 2015 do The Hunting Party, todos se perguntavam pra qual gênero o sexteto iria agarrar agora. Continuar com o peso do The Hunting Party ou caminhar por algum lugar desconhecido? Depois de quase 18 meses, finalmente Mike Shinoda, Chester Bennington e companhia lançaram a marcante Heavy, colaborando com a cantora pop Kiiara. A faixa obteve respostas variáveis dos fãs devido a sua natureza pop, com a música levemente apresentando características que fizeram seus fãs iniciais se apaixonarem por eles. Mas o Linkin Park não faz música para os outros. Pelo contrário, eles fazem exatamente como deve ser: para eles mesmos. E foi bem feito, já que One More Light soa como um álbum que o Linkin Park pretende fazer para sempre. Ele solidificou o status da banda como a maior banda de rock do mundo, assim como algumas características que cruzam com vários gêneros sem parecer forçado, mal feito ou constrangedor. One More Light é um álbum pop e elegante, com grande produção, pulsando ritmos e refrões majestosos, que apesar de saírem um pouco do Linkin Park antigo, se parecem com velhos amigos dando um oi. Enquanto caminho pelo luxuoso Conservatorium Hotel em Amsterdã, durante um dia quente de março, faço belas comparações com One More Light, sendo grandiosidade a palavra chave. Quando encontro com Mike Shinoda e olho em seus olhos castanho escuro, sou cumprimentado por um homem que já viu de tudo, dos maiores festivais aos menores, salas lotadas as quais ele e seus colegas de banda já enfrentaram no passado. Ele está tranquilo em uma cadeira preta de couro, tendo acabado de almoçar com seu amigo de banda Chester Bennington nos confins do hotel Harmony Room. Nos arredores estão membros do staff e gerência da banda, correndo pra lá e pra cá para garantir que o dia corra bem antes da dupla se dirigir a Melkweg para um evento especial. Bennington está em algum lugar qualquer durante essa conversa com Mike, o que me dá a chance de conversar com Mike Shinoda sobre diferentes assuntos.

Mike! Como vão as coisas?
Tudo ótimo, cara. Obrigado!

One More Light sai no dia 19 de maio, e está ótimo. Você pode falar um pouco sobre onde você estava no fim da campanha do The Hunting Party e onde você está agora?
Sim, claro! A turnê acabou cerca de 1 ano e meio atrás, e eu já estava escrevendo várias demos e tocando algumas coisas pros caras. Eu decidi parar em Londres, porque desenvolvi um interesse em escrever com gente de fora da banda. Justin Parker é uma dessas pessoas, e já vi o nome dele envolvido com artistas como Landa Del Rey, também me envolvi com Eg Quite que escreveu com Florence + The Machine e Adele. Nós sempre compomos nossas próprias coisas, mesmo tendo algumas participações especiais como no The Hunting Party. As faixas já estavam prontas, mesmo com os colaboradores colocando algumas coisas a mais. O único que escreveu do zero foi Daron do System Of A Down em Rebellion. E aí fiquei interessado em escrever com outra pessoa também. Como banda e como amigos nós nos conhecemos muito bem, e eu esperava muito ampliar meu horizonte e aprender algo de compositores que fazem isso pra viver. No meu primeiro encontro com Justin Parker eu perguntei a ele”, então, que diabos você faz pra viver?” Eu nao sabia naada sobre como é ser um compositor e como é trabalhar com essas pessoas. Eu tentei fazer isso no começo dos anos 2000, mas odiei. Então perguntei como isso funcionava pra ele; vocês fazem individualmente ou se encontram e trabalham juntos, digamos, algo da Rihanna? Eu aprendi de pessoas diferentes como isso funcionava, e pra nós tinha um método que realmente deu certo, mas que provavelmente não funcionaria com outros. Todos os dias nós íamos ao estúdio, e Brad e eu convidávamos alguém pra gente conversar. Nos perguntávamos o que se passava em nossa mente e sobre o que gostaríamos de cantar. Às vezes era algo besta, mas às vezes era algo que acabaria no One More Light.

Uma faixa que foi pro álbum é “Good Goodbye”, sua colaboração com Pusha T e Stormzy. Como isso surgiu?
Ela foi uma das únicas faixas que surgiram logo no começo. Ela foi feita de uma vez durante o dia; acho que estava eu e Jesse Shatkin. Ambos somos fãs de hip hop, então eu criei a faixa, ele adicionou algumas coisas, e juntos criamos a melodia principal. Eu queria que essa música fosse sobre meus momentos favoritos num jogo de basquete. Quando, num jogo do Lakers, o time rival comete um erro e o lugar inteiro fica fervoroso num momento em que começam a cantar Hit The Road, Jack e os tiram do estádio. As líderes de torcida balançando os pompons e literalmente os mandando ir embora dali, e o público acompanhando. Há algumas músicas usadas nesse momento, mas eu queria escrever uma que eles também pudessem usar nesse tipo de situação. Uma música que você pode usar de trilha sonora pra expulsar alguém. A piada é que a música é para um evento esportivo, mas numas partes mais sérias você também se sente dessa forma em um relacionamento. Como aquele momento que você sai de um relacionamento e diz “foda-se, cansei, cansei de você. Chega dessa merda!” e você fica feliz de ter dado um fim a tudo isso. Originalmente tinham dois versos nessa música, e aí colocaríamos um drop eletrônico quando chegássemos na ponte. Não soou muito bem, então começamos a pensar em quem poderia participar da música e mandar a ver nos raps. Acabou sendo Pusha T e Stormzy, pessoas que amo muito.

O álbum tem sido recebido como o mais ‘humano’ até o momento. O que você acha que contribuiu para isso?
Acho que a chave disso foi começar primeiro com o conceito primeiro. Se você entrar pela porta e as letras estiverem dizendo tudo, então esse é o momento por onde começar. Tipo, no que estou pensando hoje? Se você aparecer e quiser cantar algo sobre seus filhos, por exemplo, então é óbvio que você quer conversar sobre o que está acontecendo com eles, que eles estão crescendo rápido e essas coisas. É como se a infância estivesse escapando e todos estivessem espantados. Você entra e a música que todos estão ouvindo é algo punk rock que diz “QUE SE FODA”. No nosso caso, entraríamos no estúdio e trocaríamos a ‘pegada’. Eu seria flexível, diria: “Legal, é nisso que estamos trabalhando” e entraria naquele ambiente.

Então o ‘One More Light’ surgiu de um lado mais sobre as letras? Essa é uma aproximação diferente dos álbuns anteriores?
Bem, não é como se nunca tivéssemos feito isso antes. Certas músicas, como ‘In The End’ e ‘Breaking The Habit’ surgiram dessa maneira. Aconteceu e foi algo que sabíamos que queríamos fazer, mesmo se sempre estivéssemos fazendo de outra forma. Sei como é importante ter as letras dentro da música no início, porque fazer uma música parece legal e modelar ela realmente é legal, mas assim é fácil. Trata-se de experimentar e jogar alguns sons diferentes até que você tenha aquelas que realmente te animam. Eu passaria o tempo todo fazendo isso se não tivesse que fazer as letras, mas quando sinto que tenho que escrever uma ótima música, com ótimas palavras e uma ótima melodia acho que é mais realizador. Mas é mais difícil de se fazer, em um certo grau.

Nesse momento vocês auto produziram o álbum. Você acha que agora há pouca necessidade de se trabalhar com um produtor?
A coisa sobre trabalhar com produtores é o que inicialmente fizemos porque era o que todo mundo fazia bem. Não sabemos por que fizemos, ao invés, apenas fizemos porque sabíamos que é assim que um álbum é feito. Eu aprendi muito com o dom Gilmore nos nossos dois primeiros álbuns sobre como gravar ótimas guitarras, baterias e vocais. Basicamente, aprendi os coisas sobre básicas de pop e rock, e ele é muito bom nisso. Quando fomos trabalhar com o Rick Rubin estávamos em um processo de reinvenção da banda. Nós realmente queríamos uma mudança completa em tudo e foi quando fizemos o ‘Minutes to Midnight’. Acho que nos três álbuns com o Rick e depois no meio do ‘The Hunting Party’, eu disse: “Sabe, não vamos usar um produtor porque sinto que todos temos uma visão muito específica de como esse álbum precisa ser.” Não queria trabalhar com alguém que teria que se encaixar com o estúdio, mesmo se fosse o Rick. Queria levar esse conceito longe o suficiente, até que eu sentisse que estava completamente sólido. Foi nesse ponto que descobrimos como o álbum deveria ser e nós simplesmente não queríamos que ninguém nos ajudasse mudar aquilo. ‘One More Light’ era parecido com isso, mas sim, tivemos algumas pessoas que contribuíram e co-escreveram as músicas e adicionaram elementos extras aos procedimentos. Eu os categorizaria mais como um elenco de apoio, oposto ao Rick, que era mais como um mentor.

Como você traduziria isso em grandes shows? O álbum por si próprio já é relativamente íntimo, e assim vocês ainda estão em grandes shows, com grandes públicos.
É muito divertido! Veja, as novas músicas foram todas escritas inicialmente com um piano e violão com algumas partes cantadas. ‘Heavy’ por exemplo, teve muito piano e elementos que estão nela, mas os elementos de algo ‘ao vivo’ estão lá também, está tudo misturado de uma forma que gosto de descrever como uma sopa versus uma salada. A sopa é onde tudo está misturado e você não consegue pegar todas as partes individuais, mas a salada é onde você vê todas as partes diferentes que fizeram aquilo. Não acho que, ao escutar ‘Heavy’, você possa dizer que a bateria está ali quando na verdade está ali. Alguns dos sons foram feitos nos samples e outros não. É difícil dizer, mas quando você está em um show ao vivo você consegue notar a diferença. Eles são mais enérgicos.

O que você acha das reações dos fãs com relação às novas faixas? Você sabia que isso aconteceria?

Era meio o que eu esperava. Lançamos músicas que sabíamos que traria esse tipo de reação, pelo menos no ‘Minutes to Midnight’ e também no ‘A Thousand Suns’. Esses álbuns foram os primeiros que sabíamos que realmente iriam gerar reações. O ‘A Thousand Suns’ foi o primeiro a receber ou cinco estrelas ou uma estrela. No iTunes você podia ver exatamente quantas pessoas classificavam até certa estrela. Havia mais ou menos 1200 avaliações de cinco estrelas e umas 600 avaliações de uma estrela, mas não havia nada no meio disso! Foi nisso que nós focamos com o ‘One More Light’. Acho que é um pouco tolo que as pessoas já estejam fazendo críticas a um álbum que eles ainda nem ouviram. Eles não podem escutar uma música e avaliar o álbum inteiro com base nisso, então é algo bem engraçado. Uma vez que o álbum sair e as pessoas verem-no ao vivo eu acho que eles estarão providos com muito mais contexto. Ouvir só uma música, como ‘Heavy’ é apenas uma amostra do resto. Se a única coisa que você quer ouvir são as guitarras ESP através de um amplificador retificado, então esse não é o álbum para você. No entanto, vir para um show porque há músicas no setlist que são para você, esse também não é um álbum para você.

Estamos bem no presente agora. Mas você tem alguma ideia ou indicação da direção que vocês querem ir ou das coisas que vocês querem explorar no futuro?
Eu realmente gosto de explorar o processo de composição. Tem sido muito divertido essa nova aproximação com relação ao processo cronológico e como deveria começar e terminar uma música. Nós tentamos diferentes maneiras de fazer isso, e isso não é a causa do álbum soar assim, mas tem responsabilidade quando relacionado ao modo como o Chester canta. Aos meus ouvidos, ele está incrível nesse álbum e eu sei exatamente o que ele fez para que isso acontecesse para ele. Isso requer passar tempo testando a música de diferentes maneiras para que ficasse ótimo qual fosse o modo de cantar a música. Acabar a música e a melodia antes e deixar o Chester ‘viver’ com elas por um tempo também ajudou muito. Fez com que ele se emocionasse mais com o álbum. Esse é um procedimento bem específico que ajuda, mas é uma coisa em um milhão. Fazer músicas, como em qualquer outra profissão é um castelo de cartas. Algumas pessoas acordam com uma música na cabeça e conseguem deixa-la pronta no dia seguinte. Na grande maioria do tempo, porém, é preciso trabalho, ficar com a música durante um tempo e acertar todos os detalhes, certificando-se também de que a música não perca os momentos mágicos. É um processo divertido, mas tedioso que me anima, mas para o futuro eu diria que gosto de entrar na produção de álbum procurando por algo que eu aprenda, então, espero que o próximo álbum comece de uma forma parecida.

Muito obrigado!
Obrigado.